quarta-feira, 28 de março de 2012

A Teologia do Profeta Isaías.





Introdução

Antes de abordarmos qualquer questão sobre este livro precisamos fazer uma análise do seu contexto histórico e cultural. Esta abordagem nos ajudará a perceber a mensagem que está inserida neste livro.

A vocação do profeta Isaías sempre é desafiadora para qualquer intérprete bíblico. Aquele que se dedica ao estudo da Bíblia poderá perceber como é rico o sexto capítulo para a aplicação teológica para nós; mas também, como é significativo para o contexto imediato no qual este texto foi produzido. Isto é importante termos em nossas mentes.

O livro que temos diante de nós possui uma característica curiosa: ele tem sido visto como se fosse um resumo de toda a Bíblia. Pois o seu tema é “A salvação é de Yahweh”.

Isaías registra alguns fatos a respeito de si mesmo. Ele é filho de Amoz (1.1), que conforme a tradição histórica seria o irmão do rei Amazias (2 Reis 14.1,2); se tal tradição possui peso, então, explica o porque o profeta Isaías tinha livre acesso as cortes dos reis de Judá tais como Acaz (Is.7.3) e Ezequias (37.21;39.3). Este profeta era casado, sua esposa era uma profetisa (8.1); ele tinha dois filhos (7.3; 8.3); esses nomes dados aos seus filhos eram simbólicos e proféticos. No capítulo 8.3 – Rápido – Despojo-Presa-Segura – este nome do filho do profeta é uma promessa de que viria o julgamento sobre o povo que se recusava a abandonar os seus pecados; no capítulo 7.3 – Um – Resto-Volverá - fala da esperança de que um remanescente regressará. Isaías profetizou por cerca de 740-680 a.C, ele proclamou a Palavra de Deus por aproximadamente sessenta anos . Ele profetizou durante o período do reino dividido; e foi direcionado especificamente para profetizar para o Judá urbano, sua vocação conforme é relatada no capítulo 6 nos indica exatamente essa perspectiva.

O propósito de sua profecia é ensinar que a salvação é manifestada pela Graça de Deus. Isto se incorpora no próprio nome deste profeta que significa que a “salvação é de Yahweh”. Pois, a situação política de Judá não era confortável onde nações inimigas estavam se levantando contra o povo pactual, e os reis de Judá buscavam alianças com outras nações para se salvarem dos mesmos, todavia, a profecia de Isaías vem com o propósito de mostrar aos seus ouvintes que apenas em Deus se poderá encontrar real livramento.

A profecia de Isaías pode ser esboçada da seguinte forma: 
Oráculo de Julgamento que compreende do capítulo 1 até o 39. 
Oráculo de Salvação que compreende do capítulo 40 até o 66. 

TEONTOLOGIA EM ISAÍAS

(ISAÍAS 6)

O nosso processo hermenêutico e exegético será o de extração direta do texto bíblico a teologia que o profeta desenvolve no seu livro. Teologia? Será que Isaías tem teologia para oferecer a Igreja do século XXI? A reposta deve ser a mais positiva possível. Vejamos.

O profeta começa nos informando algo: “No ano da morte do rei Uzias” ele começa com uma nota informativa. As vezes lemos o texto e não pensamos nos grandes dilemas enfrentados por uma nação monárquica quando esta perde o seu rei. Devemos levar isso em consideração, a morte de um Rei era sinal de que estavam vulneráveis.

Sabemos por que Uzias morreu? O ministério de Isaías começou no ano da morte do rei Uzias (Is 6.1). Uzias foi um dos bons reis de Israel (ele também é chamado de Azarias). Ele reinou durante um longo período. Mas Uzias tornou-se orgulhoso. E, no seu orgulho, ele entrou no templo para oferecer incenso no altar. Isso só o sacerdote poderia fazer. Como resultado, Deus o feriu com lepra.

Assim, ficou leproso o rei Uzias até ao dia da sua morte; e morou, por ser leproso, numa casa separada, porque foi excluído da Casa do SENHOR; e Jotão, seu filho, tinha a seu cargo a casa do rei, julgando o povo da terra. Quanto aos mais atos de Uzias, tanto os primeiros como os últimos, o profeta Isaías, filho de Amoz, os escreveu. (2 Cro 26.21-22).

Observe que o historiador oficial do reinado de Uzias era ninguém menos que Isaías, o filho de Amoz. A morte de um rei gera muita insegurança no reinado. O profeta Isaías coloca isto muito bem para nós ao escrever sua profecia. Ele começa com uma nota fúnebre – Na morte do Ungido do Senhor – isto é algo muito triste para o povo do pacto. O povo estava se sentido desamparado, pois, estava sem o grande protetor - que os salmos usam a figura do rei como o pastor do povo pactual – levando o povo a desesperança.

Provavelmente o profeta estava também se sentindo desta forma quando entrou no Templo para orar a Deus. Mas o que acontece a este profeta? O que ele vê? Ele nos diz “eu vi o Senhor” no texto hebraico ele diz: yn"±doa]-ta, ha,ór>a,w" – va’er’éth eth Adonay – o termo yn"±doa – Adonay – tem haver com a realidade daquele, que nos tempos antigos, tinha toda autoridade de definir a vida e a morte de seus escravos. Ele é o senhor tanto da vida quando da morte, a supremacia de Deus é apresentada de forma singular pelo uso do substantivo “Adonay”.

Deus, na visão do profeta, está “assentando-se sobre o trono” no hebraico comunica a ideia de que Deus continua como o Rei da nação, apesar da nação ter perdido o seu rei, o verdadeiro, e único Rei de Israel é o SENHOR.

Isaías nos apresenta Deus como aquele que é “Santo”. O que este termo significa na literatura veterotestamentária? O significado desta palavra é muito debatido entre os eruditos em Antigo Testamento. O Dr. Sinclair B. Ferguson diz que este termo traz consigo mesmo “idéias tais como ‘cortar’ ou ‘separar de’, ‘ser colocado à distância’, daí o sentido de ‘se posto à parte’, a fim de pertencer a Deus”.[1] É notório que o termo hebraico vdq; (qadosh) tem uma significação de “manifestar-se como santo, consagrar para, separar de, conferir santidade, evidenciar-se como santo”.[2] O que isto evidencia na discussão sobre este tema? É o fato de que este adjetivo tem a função de comunicar “distância moral” entre o Deus santíssimo e o homem pecador. “A santidade de Deus é uma visão da pureza do seu eterno e infinito ser”.[3] Isto é bastante ilustrativo no texto de Isaías 6 onde Deus é contemplado como estando em um alto e sublime trono e o profeta como um miserável pecador que perecerá diante daquele que é três vezes santo.

A comunicação desta distância moral entre o homem e Deus são ressaltadas em primeiro plano pelo adjetivo “santo” exaltando a singularidade da separação do substantivo ao qual o termo adjetiva. Indicando separação imperativa entre o impuro e o santíssimo; ensejando a Plena Santidade de Deus que não tolera o pecado.

Esta é a visão da teontologia de Isaías, um Deus santo no qual homem não pode tocar. Esta distância é ainda acentuada no versículo 5: o profeta disse: “habito no meio de um povo pecador” (ameäj.-~[; ‘%Atb.W ykinOëa') – anoki uvthok ‘am teme – ao usar o pronome pessoal (ykinOëa); – "anoki") o profeta quer nos oferecer uma ênfase singular, ele não busca se desculpar, ele não se esquiva, mas se inclui na lista dos pecadores; ele não apenas convivia, mas ele habitava no meio de (‘%Atb.W – uvethok) um povo (-~[; – ‘am) cheio de impureza (ameäj. - teme’) ele declarou que era alguém que estava perdido (ytiymeªd>nI-yki( yliä-yAa) - ’oy-li ki-nidemeythi) o verbo hebraico usado aqui para “estar perdido” é o verbo rm*:D – damar – que está sendo usado no nifal aqui, indicando a passividade sofrida pelo profeta, todavia, o significado do verbo é cortar – ou seja, o profeta diz “estou sendo cortado” também ele disse que era um profundo pecador; por quê? A resposta é porque ele era um homem de “impuros lábios”.

Isso porque a concepção de Deus apresentada pelo profeta é de um ser que não pode ser contaminado pelo pecado, a figura das vestes do ser divino envolvendo o templo nos indica isso de forma muito clara; ele emudece, pois, enquanto os Serafins cantavam a santidade de Deus e não ousavam a olhar para Deus; o profeta encontrava-se calado diante de tal majestade, lhe faltava os chãos aos pés ao contemplar tamanha santidade divina.

A ANTROPOLOGIA DO PROFETA ISAÍAS 

(ISAÍAS 1) 

Isaías chega a contemplar a santidade de Deus o profeta, e não fica apenas nesta contemplação, pois, em sua profecia também nos mostra a visão que ele possui do homem. Nós só podemos conhecer quem é o homem quando somos impulsionados a contemplarmos a Deus. Calvino já afirmava exatamente esta verdade sobre os seguintes termos:

Quase toda a suma de nossa sabedoria, que deveras se deve ter por verdadeira e sólida sabedoria, consiste em dois pontos: a saber, no conhecimento que homem deve ter de Deus, e no conhecimento que deve ter de si mesmo. Mas como estes dois conhecimentos estão mui unidos e entrelaçados, não é coisa fácil de distinguir qual precede e origina o outro, pois, em primeiro lugar, ninguém pode se contemplar sem que por algum momento se sinta impulsionado a levar em consideração a Deus, no qual vive e se move; porque não existe quem duvide que os dons, nos quais toda a nossa dignidade consiste, não sejam de maneira alguma nosso.

É exatamente esta compreensão que temos ao ler o capítulo um do livro do profeta Isaías. Neste capítulo temos a visão do que é o homem, temos a antropologia do profeta. Ao contemplarmos este capítulo corremos o risco de interpretarmos a antropologia do profeta em termos puramente negativos, embora seja algo predominante nos textos do Antigo Testamento, esta não é a real concepção aprendida pelo profeta. É verdade que esta distância moral existe entre a criatura e o criador, mas ela existe primeiro para mostrar que somos seres dependentes e para apontar para a soberania de Deus.

O profeta começa o seu capítulo dizendo que toda a profecia é fruto de uma “Visão” (!Azx] - hazon) apontando para a realidade de que a profecia não nasce dele, mas é divina. O profeta como grande escritor vale-se de um oráculo de julgamento em todo este primeiro capítulo, toda a estrutura do texto nos leva para esta abordagem.

Como é classificada esta palavra de julgamento? É classificada como uma “ameaça que anuncia uma desgraça, imediatamente acompanhada de justificativa ou sem ela, por causa do pecado dos homens”.[5]

Deus chama os céus e a terra como testemunhas: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra;” (vs.2). A figura de um tribunal é bem vívida na mente do profeta. Os céus e a terra devem prestar atenção W[Üm.vi (shim‘u) mas, não sem compromisso, porém, deve estar atentos como testemunhas do Senhor; e a razão disso é “porque o SENHOR tem falado:” o contraste é gritante, enquanto a Criação ouve a voz de seu Criador, Israel que é retratado como filho ‘~ynIB' (banim), aqui no plural, não o obedece e conseqüentemente não escuta a voz do seu Pai, antes de tudo manifesta sua rebeldia W[v.P'î (pashe‘u); ora aqueles filhos foram engrandecidos yTil.D:äGI (giddalethi) , mas eles decidiram ir contra o Criador de todas as coisas. 

O contraste se acentua quando no versículo 3 Deus informa que os animais sem razão reconhece quem cuida deles, mas “Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende.” O profeta usa de um parelelismo sinônimico com tônica negativa.

Este paralelismo é percebido da seguinte forma :

‘laer"f.yI - isera’el (Israel) 

yMiÞ[; -‘ammi (meu povo) 

[d:êy" al{å - lo’ yada‘ (sem conhecer) 

!n")ABt.hi al{ï - lo hithebonan (sem entender) 

O substantivo “Israel” tinha sua ideia repetida como “meu povo” apontando para uma relação paralela e sinônima, e de igual modo está a tônica negativa “sem conhecimento” faz paralelo com “não entende”.

No versículo seguinte segue-se um paralelismo tipo sintético onde há desenvolvimento dos pensamentos anunciados. O povo é retratado nos termos mais pecaminosos possíveis: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniqüidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.” (vs.4). O paralelismo é sintético sendo percebido pelo uso que profeta usa de fórmulas que completam o sentido da primeira imagem. O dito de julgamento “Ai” anuncia o juízo que vem caracterizando o povo que está para ser sentenciado; “nação pecadora” o termo diz alguma verdade, mas o profeta quer completar o sentido; ele o faz de forma singular: “povo carregado de iniqüidade” é claro que o sentido é sinônimo, porém, sintético; o povo não só peca, mas carrega sobre os seus ombros profundas maldades.

Outro fato que nos chama atenção é que antes este povo fora chamado de “filhos de Deus” – Criei filhos yTil.D:äGI ‘~ynIB' (banim giddalethi) – mas agora eles são retratados como “descendentes de malfeitores” - ~yti_yxiv.m; ~ynIßB (banium mashhithim) – no original “filhos pútridos”. O profeta passa a descrever o homem sem esperança; um homem insensível às ameaças e às punições de Deus; está ferido, mas não se arrepende. Comete o que é mal diante de Deus no ato da adoração; eles consagraram as costas para Deus “deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.” (vs.4). Eles consagraram ao Santo de Israel as suas costas `rAx*a' WrzOðn" (nazuru ’ahor) – eles de fato rejeitaram o autor da vida.

O homem é mal e se levanta contra o próprio Deus! Esta é a visão do profeta Isaías sobre a realidade do que seja o homem. E ainda assim, Deus tenciona chamar o povo ao arrependimento mostrando a real situação da cidade:

7 A vossa terra está assolada, as vossas cidades estão abrasadas pelo fogo; a vossa terra os estranhos a devoram em vossa presença; e está como devastada, numa subversão de estranhos. 8 E a filha de Sião é deixada como a cabana na vinha, como a choupana no pepinal, como uma cidade sitiada.

Mas, o povo continua insensível. A visão que sobra é um homem desesperadamente corrupto sem alguma bondade nele. O povo é contemplado na profecia como um povo prostituto ( vs.10-20) o povo é exortado a mudar de atitudes pecaminosas. O homem é totalmente depravado, e nos parece que não existe esperança para este. Será mesmo? A grande questão é: Qual a importância de Isaías acentuar esta distância entre o homem e Deus? A resposta está no aspecto redentivo de um mediador que é retratado com propriedade neste livro. O mediador é a figura pactual e central neste livro. O povo quebrou as relações pactuais e Deus quer manter as estipulações com este povo, mas mediante um mediador do pacto.

A SOTERIOLOGIA DO PROFETA ISAÍAS 

(Is. 52-53.12) 

A figura do “servo sofredor” de Yahweh passa a ser a personagem dominante da profecia de Isaías neste momento. Assim, aflora o conceito redentivo deste profeta. A redenção não vem em termos das aliança políticas que os reis de Israel tencionava realizar com as nações vizinhas[6], mas se torna real no conceito divino do mediador.

Quem é este “Servo Sofredor”? Alguém disse que as “expressões de que se serve o profeta para descrever o Ebed são ao mesmo tempo precisas e misteriosas... E, no entanto, não sabemos quem é este ‘Servo do Senhor’, e ainda somos informados que o ‘profeta não nos diz nem quando nem em que circunstâncias ele aparece”[7].

Estes versículos são tidos como cânticos do Servo Sofredor. E tais versículos têm sido divididos “em cinco estrofes de três versículos cada”[8]. Nós devemos analisar estas estrofes para entendermos os conceitos soteriológicos do profeta.

O profeta começa a primeira estrofe deste texto mostrando que neste novo momento Israel precisa perceber que há uma promessa redentiva neste personagem. O profeta usa uma partícula de intejeição hNEïhi - hineh - mostrando uma transição direta das experiências do povo pactual para as experiências do redentor. Ele será prudente, ou seja, a sabedoria se faz presente. O profeta apresenta-nos a “dimensão gloriosa” deste servo, pois, ele “será elevado, exaltado e colocado numa posição muito alta”[9].

Os verbos usados aqui tem sido considerados como sendo uma referência a um paralelismo sintético ou progressivo Hb;Þg"w> aF'²nIw> ~Wrôy" (yarum,venisa’, vegavahu) mas, estes verbos não devem ser considerados nesta estrutura, e , sim como verbos que forma um paralelismo sinônímico. Embora alguns eruditos discordem desta abordagem sugerindo que aqui faz-se uma referência a “três estágios: emergir da humilhação, contínua exaltação e admissão numa elevada posição”[10]. Todavia, outros como Young aponta que esta não “é a intenção de Isaías”[11].

O profeta no uso destes verbos está apontando para o alto grau de exaltação do servo sofredor. É importante notar que o “Servo não se torna um exaltado”[12]. O nó exegético de alguns eruditos encontra-se nos versos 14-15 do capítulo 52. Estes versículos não têm sido avaliados dentro do escopo gramatical que exigem ser compreendidos. Muitos têm sugerido que o versículo 14a é uma prótase[13], mas é preferível que haja aqui uma prótase seguida de uma declaração “parentética, que por sua vez, são seguidas pela apódose”[14] neste caso a expressão “os reis fecharão as suas bocas por causa dele” explica a primeira sentença.

As conjunções usadas pelo profeta indica exata a função deste mediador pactual na figura do Servo do SENHOR. O uso da conjunção !KEÜ – ken - associada ao verbo ‘hZ<y: - yazeh - esclarece adequadamente o uso das conjunções conforme empregadas pelo profeta. O verbo aqui pode significar “esguichar”, “espalhar”, “aspegir” o verbo encontra-se no hiphil indicando que o sangue do Servo causará a libertação ou perdão dos pecados. A ação dos que pasmam e dos reis que se calam devem ser tomadas, com certa cautela, como sinônimos e a expressão rv,’a] yKiû - ki ’asher - deve ser tomadas como um acentuação do contraste promovido pelo profeta entre os que pasmam e ficam calados “por causa dele” ou da ação redentiva que o Servo traz ao povo.

A redenção manifesta humilhação para aqueles que se julgam poderosos (os reis), o homem desprezado é o autor da redenção. O profeta em sua profecia indica que as nações serão aspergidas pela ação de redenção sacrificial trazida pelo Servo do SENHOR. Algo se destaca aqui neste trecho das Escrituras (Is. 53.1-12) não são todas as nações que recebem a morte do Servo com valor expiatório, não era destinado unicamente ao povo do pacto (Israel), mas incluem-se os eleitos de Deus em toda tribo raça e nação “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”.

A extensão da obra redentiva é cósmica. Os efeitos da expiação do Servo alcança todo o cosmo. A restauração não apenas do homem com Deus é manifestada aqui, mas a paz (o castigo que veio sobre ele nos deu a paz) e a justiça devem ser manifestações de um reino eterno que alcança o mundo em proporções universais.

A terceira realidade é que o Servo assume seu direito régio; a humilhação e o sofrimento dele antecipam o seu governo sobre todas as nações. Neste Servo os três ofícios se encontram – Profeta, Sacerdote e Rei – isto indica que a redenção é de fato uma realidade que não pode ser negada.

O capítulo 53 começa com uma pergunta em tom de acusação contra o povo: “Quem deu crédito”? !ymiÞa/h, ymiî - mi he’emin - os gentios creem, mas o povo da aliança recusa-se a crer. Este é o contraste, e apenas, um remanescente irá exercer fé naquilo que fora anunciado.

O braço forte aqui indica a ação redentiva de Yahweh para com o povo da aliança. O povo tem “testemunhado o julgamento de Yahweh sobre os inimigos e a poderosa ação que traz salvação e liberdade”[15]. O servo apesar de manifestar tal redenção será desprezado, assim como foram os profetas do Antigo Testamento, isto trará ao Servo um sofrimento visível. A desfiguração e as doenças cairão sobre ele em favor do seu povo. Ele experimenta as trágicas conseqüências do pecado, tudo para diminuir a distância entre o homem e Deus, e trazê-lo de novo à comunhão com o seu criador. O texto nos indica que o Servo terá sucesso em sua ação redentiva, pois, “ele verá o fruto penoso”, uma referência ao seu sofrimento vicário, “e ficará satisfeito” indicando uma consumação total e final da obra da redenção. Ou seja, o Servo Sofredor de fato salvará os pecadores de forma total e final garantindo assim a salvação eterna do seu povo.

O conceito messiânico apresentado aqui indica não apenas um mediador, mas que este mediador é Deus, pois, diz que este servo salvará o povo de seus pecados, e apenas, Deus pode salvar os homens dos pecados nos quais estão imersos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quais as implicações disto tudo? São várias. A primeira diz respeito a questão da soberania de Deus no governo do mundo. Apenas Deus governa o mundo com profunda sabedoria e realizações poderosas; aqui aprendemos a verdade de que Deus não pode ser removido do trono do universo; esta é a primeira implicação que podemos ter do livro deste profeta.

A segunda, ainda que ligada a primeira, é que esta soberania é retratada não apenas em termos de poder, mas em termos de santidade também. Isto significa que Deus como se revela na profecia de Isaías é o padrão absoluto da moralidade neste mundo. Não existe nada e ninguém que possa determinar o que seja certo ou errado sem levar em consideração a santidade de Deus; pois, somente ele pode ditar regras e padrões de moralidade isto por causa de sua santidade absoluta.

A terceira implicação diz respeito ao que é o homem. O homem é um ser que fora criado conforme a Imagem de Deus, visto e contemplado como filho de Deus; mas ao cair em transgressão este só planeja roubar a glória de Deus, destronar o soberano do universo. “e como Deus sereis...” (Gn.3.5) foi a tônica da tentação. O homem não estava satisfeito em ser apenas criatura, ele queria ser divino! Essa realidade volta a ser apresentada aqui na profecia de Isaías o homem corrompido é chamado a se arrepender, mas ele não quer vir ao encontro de Deus; ele rejeita a Deus com seus pecados, desconhece o seu criador. Faz o que é mal perante os olhos de Deus, este é o homem totalmente depravado que Isaías apresenta.

E, por último é a realidade de que se o homem não vem ao encontro de Deus; então, Deus, na pessoa do Servo Sofredor, mediador pactual, vai até o homem para redimir e resgatá-lo dos seus pecados escrabosos, apenas um mediador entre Deus e os homens pode de fato realizar a obra da redenção de forma real e suficiente. Ele diminui a distância entre o homem e Deus.