quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Centralidade de Deus na Pregação.




Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém

(Romanos 11.36)

Uma das grandes falhas dos pregadores, hoje em dia, é a falta de ênfase na majestade e grandeza de Deus. Vivemos em tempos em que as mensagens valorizam mais a cura ou algo que vem de Deus, do que o próprio Deus. Embora a aplicação na vida dos ouvintes seja importante na pregação, muitos sermões não passam de apenas aplicações.
Algumas igrejas esquecem que é a Graça de Deus agindo através delas que faz os filhos serem “educados à maneira de Deus”. As pessoas casadas para sempre não obtiveram este sucesso porque a aplicação da mensagem do curso foi feita por elas, mas porque Deus graciosamente atuou no esposo e na esposa, transformando pessoas com gênios diferentes em uma só carne – e a aplicação da mensagem foi o meio pelo qual a Graça atuou. Sempre teremos temas contemporâneos que são de mais interesse para Igreja; a frase de Karl Barth de que um pastor deve ter a Bíblia numa mão e o jornal na outra não deixa de ser pertinente. O perigo está justamente em termos apenas jornais nas duas mãos.
A verdade desta idéia está contida em uma frase batida – sempre dizemos “o homem tem sede de Deus”. Não dizemos que o homem tem sede de um casamento para sempre ou de uma resposta para questão do homossexualismo. Uma pessoa comum tem estas questões dentro de si, mas primariamente, ela tem o desejo de conhecer a Deus, um desejo que só é saciado por Cristo. E não tenho dúvidas de quanto mais você conhece alguém que ama, mais você quer conhecê-la, pois mais quer amá-la.
Os jovens de nossa sociedade pós-moderna – inclusive a juventude cristã – têm uma certa antipatia por organizações e instuições, inclusive eclesiásticas e denominacionais. Conversando com jovens da Missão Horizontes e do Projeto Radical da Junta de Missões Mundias (da Convenção Batista Brasileira), pude perceber que havia algo em comum neles – eles não tinham qualquer temor por enfrentar os perigos do trabalho missionários, pois aquilo que os movia era o amor a seu Deus. Em compensação, membros dos dois projetos – que são nitidamente iguais, pois o Radical se inspirou no Horizontes – se mostraram muito insatisfeitos com o fato de a JMM não apoiar a Missão Horizontes porque não era da denominação “batista”. O que moveu esses jovens foi outra coisa além de um Deus grandioso.
É evidente que os distintivos teológicos são importantes ao se fazer um trabalho missionário, mas também é evidente que não são os distintivos teológicos que criam o amor à obra e tampouco são a motivação primordial que leva um missionário a dedicar sua vida a encontrar o povo de Deus em determinado país.
Da mesma forma, antes de qualquer outro tema em nossa pregação, temos de enfatizar nosso Deus, e Sua majestade, glória, poder, justiça, santidade e soberania. Outros temas podem estar envoltos neste tema principal, mas devemos nos lembrar que as únicas pessoas que podem falar sobre Jesus Cristo são justamente os pregadores cristãos. Um homem não-crente, para tentar salvar seu casamento, tem uma outra opção além de um pastor – um conselheiro. Uma pessoa doente também – o médico. Em compensação, aqueles que buscam a Deus, só têm uma opção – o pregador do Evangelho. Um homem com fome de Deus nao irá procurar um médico, um psicólogo, um personal trainer, ou um conselheiro matrimonial.
Está em nossas mãos satisfazer este homem.
 
“Para ele são todas as coisas” – O Alvo da Pregação
Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!”.
(Isaías 52.7)

Se o alvo de Deus é glorificar a Si mesmo, o alvo do pregador não pode ser outro senão glorificar a Deus - A todos os que são chamados pelo meu nome e os que criei para a minha glória, os formei, e também os fiz (Isaías 43.7). Portanto, antes de tentar esclarecer a Igreja sobre determinado assunto, trazer um reavivamento à juventude, evangelizar homens perdidos, o pregador deve ter em mente que o seu objetivo principal – do qual se derivam todos esses nobres objetivos secundários – é exclusivamente a glória de Deus.
Como disse antes, uma das formas que nos leva a um amor e admiração cada vez maiores por Deus é conhecermos o máximo que pudermos dEle. E este conhecimento, por mais que muitos neguem esta idéia, também inclui o conhecimento racional. Com a ênfase cada vez menor por parte de algumas denominações e igrejas estão dando à EBD, à Educação Cristã e à própria doutrina, os crentes têm muitas “experiências” com Deus, mas poucos sabem definir o que foi a expiação vicária de Jesus Cristo – apenas para citar um exemplo de palavras difíceis, mas que contêm um significado profundo. Se os crentes conhecessem – não as palavras difíceis – mas seu significado, tenho certeza que o sacrifício de Jesus se tornaria motivo de louvor ainda maior.
A proposta não é tornar o momento do sermão em uma parte do culto acessível apenas aos “iniciados” mas, se os ministérios de educação cristã deixam a desejar, cabe ao pregador explicar tais assuntos, não por um desejo de ter uma igreja mais inteligente, mas por amor às almas desta igreja, para poder levar as ovelhas sob seu cuidado a uma adoração cada vez mais sincera. Charles Spurgeon foi um pastor incrivelmente popular, mas não abria mão de sua teologia, a ponto de dizer que nunca teremos grandes pregadores até que tenhamos grandes teólogos . Imagine quantos pregadores “disfarçados” de crentes leigos teríamos nas ruas caso todos tivessem uma forte base teológica! Tenho certeza absoluta que Deus seria muito glorificado com esta avalanche de pregadores anunciando o Evangelho.
Posso citar um caso acontecido numa classe de adolescentes de uma igreja em Brasília. Um jovem professor assumiu esta turma e poderia ensinar um tema de sua escolha. A princípio, ele pensou em falar sobre temas mais comuns, como namoro, sexo ou emprego. Até que encontrou um livro de John Murray, Redenção – Consumada e Aplicada . Decidiu que falaria sobre este assunto para os garotos, mesmo sendo algo bastante desafiador. Imagine explicar termos como expiação vicária e propiciação para alunos de 15 a 18 anos! Até o próprio professor teve dificuldades em entender alguns termos, mas pela Graça do Senhor, foi capaz de aprendê-los e ensinar aos alunos, adaptando-os à realidade deles.
Para explicar a propiciação, foi dado o exemplo simples de um cinema, que era um local inapropriado para realizar-se uma meditação, mas caso pudéssemos desligar a projeção e acender as luzes, aquele local tornaria-se propício. Conversando com uma aluna, quis saber se o assunto estava agradando. Em suas palavras de adolescente, a garota disse “estou gostando muito de aprender sobre esse assunto diferente, é muito legal” . O professor me contou que as aulas fizeram um adolescente lhe dizer que a explicação sobre o sacrifício expiatório de Cristo o fez desejar ler o tão temido e impopular livro de Levítico. Deus é glorificado quando as pessoas desejam aprender mais e mais sobre Ele.
É verdade que não podemos dizer que todos aqueles que têm um grande conhecimento da Bíblia glorificam mais a Deus (temos vários ateus com passagens prontas para serem usadas contra os cristãos). Mas tenho certeza de que, quanto mais conhecemos a Deus – sim, também neste sentido racional – mais O glorificamos.
Infelizmente, vivemos em uma época em que a pregação busca mais o lado emocional das pessoas que o homem por inteiro. Além disso, o pragmatismo reina, uma necessidade de que o culto dê resultados, traga transformação de vidas de uma hora para outra. As pessoas querem saber se essa igreja “funciona” ou não. Sem falar a clássica pergunta sobre “quantas almas foram ganhas” na sua pregação.
Estes fatores afetam fortemente o sermão contemporâneo, de forma que uma mensagem em que o pregador gaste tempo aconselhando um casamento ou use suas habilidades para fazer as pessoas chorarem (embora existam aqueles pregadores já especializados em transformar mensagens em shows de comédia) é considerado bem mais útil que aquele sermão em que o pregador concentra toda sua mensagem numa proclamação da majestade de Deus. O arauto citado no início deste tópico talvez não fosse tão bem recebido nos dias de hoje, ao gritar apenas “O Senhor reina”.
Exaltarmos o Deus que nos resgatou e glorificá-Lo – nunca devemos ter qualquer outro propósito acima deste quando pregamos. Que nós pregadores jamais esqueçamos que “quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo” – e isto inclui a pregação – “para glória de Deus”.
 
“Dele” – A Base da Pregação
Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” (1 Coríntios 2.2)

John Piper nos fala de dois obstáculos bem conhecidos, para que a pregação atinja o seu alvo:
•  A justiça de Deus – que deve ser satisfeita
•  O orgulho do homem – que deve ser destruído.
A única forma de responder a estes dois pontos satisfatoriamente é a Cruz de Cristo. Ao derramar seu cálice de ira santa sobre Seu Filho, Deus não deixa qualquer espaço para orgulho ou vaidade, pois sabemos que nada fizemos para merecer a salvação.
Um pregador que não tem como base um Deus santo e justo, nem o orgulho destruído pelo sacrifício de Cristo, será incapaz de expôr o Evangelho corretamente aos seus ouvintes. De modo oposto, um pregador que conhece bem a doutrina da Cruz, sabe que esta é a única forma pela qual somos libertos do pecado e de o homem alcançar a salvação; o pregador que conhece a Cruz de Cristo sabe que, se há algum justo na Terra hoje, é porque sua justiça procede de Deus, por meio de Cristo Jesus.
Um erro moderno é esquecer-se que Deus nos ama não porque merecemos, mas por Seus próprios desígnios insondáveis. Além disso, mais que dar sua própria vida em resgate de muitos, o principal propósito de Jesus ao se rebaixar à forma de servo foi também a glória de Seu Pai. Assim, não podemos subverter o sentido do sacrifício de Jesus com a idéia de que éramos tão precisosos que Deus teve de dar Seu único Filho para nos salvar.
Talvez estes pregadores façam isso para elevar a auto-estima da congregação, porém a Bíblia é claríssima em dizer que ainda éramos pecadores quando Cristo morreu por nós. Se o fato de sermos “preciosos” fosse verdadeiramente o motivo de nossa salvação, a existência deste nosso “grande valor” acabaria com toda a Graça de Deus, pois teríamos um mérito, algo para oferecer, ou ao menos algo que nos tornaria “mais dignos” do sacrifício de Cristo.
Além disso, a cruz também serve para manter nossa humildade, como pregadores. Embora a crucificação de Jesus tenha sido um evento histórico e objetivo, seus efeitos e a intercessão constante que temos por Jesus diante do Pai permancem para nos lembrar de quanto dependemos de Deus e como não existe motivo para uma autoconfiança.
Paulo deixa muito claro que não existia outro assunto mais importante a ser pregado que a cruz de Cristo. Como no versículo que abre esta seção, ele também diz em Gálatas 6.14 que “mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.”
Em toda Escritura vemos que Paulo deixava bem claro que sua mensagem se baseava no Cristo crucificado. Ele fazia isso para que as pessoas tivessem fé em Deus, e não nele. Em um trecho de Coríntios ele afirma que não chegou à cidade demonstrando grande oratória, e que apenas expôs o Cristo crucificado. Ultimamente vemos pastores que possuem excelentes técnicas de discurso e retórica, mas são incapazes de ser fiéis à Palavra – este é apenas um reflexo de uma visão distorcida da Cruz de Cristo. Uma pessoa que tem um verdadeiro entendimento do que aconteceu ali se torna incapaz de colocar qualquer palavra sua junto à mensagem do Evangelho.
A cruz sustém a glória de Deus na pregação e abate o orgulho do homem no pregador. É, portanto, o fundamento de nossa doutrina e o fundamento de nosso comportamento.” (John Piper)
 

“Por meio dele” – O poder do Espírito.

O Espírito do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos”
(Isaías 61.1)
Um pregador consciente da majestade de um Deus tão santo e gracioso, que decretou a morte de Seu Filho obediente para que vidas pecaminosas – grupo do qual ele faz parte – só poderá realmente ter forças para chegar à frente de uma congregação e falar sobre algo tão grandioso se este mesmo Deus o sustentar. É neste momento que o trabalho do Espírito de Deus tem de ser o poder pelo qual o portador da mensagem trará seu sermão.
Mais uma vez, ao nos focalizarmos no Espírito Santo, Deus também será glorificado, pois o pregador saberá que as palavras de sua boca durante um sermão não são frutos de esforço pessoal, mas da Graça Divina – “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei.” (Isaías 57.19). É evidente que as palavras mais importantes já deixadas pelo Espírito de Deus aqui na Terra estão contidas na Bíblia, por isso é inaceitável que abracemos qualquer pregador cristão que não se utiliza primordialmente da Palavra de Deus, a Espada do Espírito,para suas mensagens.
Sabemos que o ministério do Espírito Santo é muito abrangente na vida dos pregadores (na verdade, tudo na vida de um pregador deveria ser movido pelo Espírito), por isso nos concentraremos especialmente na Revelação de Deus aos homens.
Infelizmente vivemos numa época em que os testemunhos reinam. Não tenho nada contra ouvir irmãos que querem anunciar alguma bênção ou alguma experiência com Deus para toda a igreja – isto também é anunciar boas novas. O problema é que em algumas igrejas isto se tornou tão sintomático que a Palavra de Deus ganha o papel de coadjuvante nos cultos. E se alguém disser que sente falta da Bíblia, acaba recebendo como resposta as palavras de Paulo – “a letra mata, mas o Espírito vivifica” – completamente distorcidas. Quando estas palavras são ditas, nem adianta ao defensor da Palavra explicar o que Paulo realmente quis dizer – para seu interlocutor, este irmão está “morto pela letra”. [Nota do Monergismo.com: Isto para não citar que o próprio conceito de testemunho foi totalmente distorcido, e o que é praticado na maioria das igrejas de hoje não é testemunho de forma alguma. Aqui, as palavras de John Stott são muito esclarecedoras: “Testemunho não é sinônimo de autobiografia! Quando estamos realmente testemunhando, não falamos de nós mesmos, mas de Cristo”].
Outro grande perigo que não precisamos, nem podemos, correr (e que é bastante simples de ser evitado) é citar várias passagens da Palavra durante a mensagem sem informar onde ela se encontra. O povo de Deus precisa saber que essa citação está nas Escrituras, a fim de que os textos citados não sejam aceitos simplesmente porque o Pastor disse. Além disso, uma congregação que zela pela Palavra e confere o que é dito recebe elogios da própria Bíblia, se observarmos o exemplo dos bereanos (At 17.11) – que pastor não gostaria de ter uma congregação assim? Apenas aqueles que têm algo a temer...
Outra forma de demonstrar confiança no Espírito Santo é depender completamente de sua ajuda para interpretar a Palavra. Antes de sermos protestantes, evangélicos, batistas, presbiterianos, tradicionais, ou qualquer outro termo, temos de ser bíblicos, aceitar e entender o que nos foi escrito. O único meio para alcançarmos esta humildade e compreensão é através do poder do Espírito Santo, pois o homem espiritual interpreta coisas espirituais. Se Lutero tivesse sua mente cativa à Igreja Católica antes de tê-la cativa à Palavra de Deus, ele jamais seria o homem que foi, e sofreria até o dia de sua morte a culpa e as dúvidas geradas pela teologia anti-bíblica das indulgências.
Não devemos nos concentrar em apenas alguns livros, passagens e escritores favoritos. É claro que sempre teremos nossas preferências, mas não podemos esquecer que estamos diante de um Livro completo e que muitas heresias nascem justamente do fato de as pessoas não lerem este Livro como um todo, mas apegam-se a apenas um versículo para criar teorias mirabolantes. Exemplifico com o caso de uma irmãzinha que criticava a “concepção errônea” da Igreja, de que o homem e a mulher crentes foram criados para se casar – por causa de palavras mal-interpretadas em 1 Coríntios 7, e por ignorar completamente os outros trechos em que o Apóstolo recomenda o casamento.
Como disse o Apóstolo Paulo, toda Escritura é proveitosa, e não apenas alguns trechos mais agradáveis ao público que nos ouvirá, e a nós mesmos. Que estejamos submissos a este Livro tão maravilhoso.
 
Conclusão  
A Bíblia é clara quanto ao tipo de palavra que deve sair de nossa boca – “apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem” (Ef 4.29). Assim, especialmente no momento em que estiver pregando, o crente não deveria falar outra coisa se não o assunto que Deus realmente deseja, que realmente O glorifique, e que seja um meio de graça para seus ouvintes. Só conseguiremos isto se formos submissos de todo o coração ao Senhor e à Sua Palavra. Um homem incapaz de reconhecer-se como um simples servo, como apenas o encarregado de trazer a mensagem, nunca glorificará a Deus com seu discurso.
Que Deus possa abrir nossas mentes para Sua palavra, que Sua glória seja o único motivo de nossos sermões e que a Cruz seja a base de nossa humildade, e de nosso louvor!

Soli Deo Gloria!

Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus (...) para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e poder para todo o sempre. Amém” (1 Pedro 4.11).